[DOS DIÀRIOS 1941-1947]
20.11.45
Ezra Pound foi preso na Itália e trazido para cá como traidor. Um quê de dignidade feudal paira sobre George, Kipling, D’Annunzio, Pound. Em todo caso, são personalidades históricas que a gente não encontra exatamente nos mercados, mas sim nos templos — nos arredores dos mercados.
[...]
30.10.47
Pela manhã, em Washington, perante o Un-American Activities Committee [Comitê de Atividades Antiamericanas]. Após dois escritores de Hollywood (Lester Cole e Ring Lardner Jr.) terem respondido à pergunta se pertenciam ao Partido Comunista dizendo apenas que a pergunta era inconstitucional, eu fui chamado a depor, seguido pelos advogados dos 1967, Bob Kenny e Bartley C. Crum, que não foram autorizados a intervir de forma alguma.
Cerca de oitenta representantes da imprensa, duas estações de rádio, cinegrafistas, fotógrafos; no público, pessoas do teatro da Broadway como observadores simpáticos a nós. Em concordância com os 18 e os advogados, respondi à pergunta, enquanto estrangeiro, e conforme à verdade, com um “não”. O procurador Stripling lê muito da “Medida Tomada” e me deixa contar-lhe a fábula. Remeto ao ensinamento japonês, dou como conteúdo a devoção a uma ideia e nego a interpretação de que se trate de um assassinato disciplinar, retificando que se trata de um autoextermínio. Admito que a base das minhas peças é marxista e observo que as peças, especialmente as de conteúdo histórico, não poderiam ser de outra maneira escritas de forma inteligente. O interrogatório é desproporcionadamente educado e termina sem acusação; beneficia-me o fato de eu não ter quase nada a ver com Hollywood, de nunca ter interferido na política americana, e de os meus antecessores na bancada terem se recusado a dar resposta aos congressistas. — Os 18 estão muito satisfeitos com o meu testemunho, bem como os advogados.
Deixo Washington imediatamente, com Losey e Hambleton, que tinham ido para lá. — À noite, escuto no rádio uma parte do meu interrogatório com Hellie Budzislawski.
[ANOTAÇÕES AUTOBIOGRÁFICAS 1942]
[...]
São certamente exteriores, mas não vejo qualquer solução interior para esse problema. A morte não é boa para nada. Nem todas as coisas devem servir para o melhor, nenhuma sabedoria insondável se estabelece daí. Não pode haver consolação.
[uma lógica e um sentimento da não-lógica e do não-sentir. Como uma não-compreensão do branco ser todas as cores juntas; e o negro não ser nenhuma cor; e um só existir pelo outro; e todas as cores possíveis nascerem daí. É o eterno vice-versa. A beleza da vida está nas boas coisas e nas más coisas. Sorrimos porque choramos. Assim como choramos de alegria e rimos de tristeza.]
WB
selbst der wechsel der
jahreszeiten
rechtzeitig erinnert
hame ihn zurückhalten
müssen
der anblick never gesichter
und alter auch
never gedanken heraufkunft
und never schwierigkeiten [1941]
WB
mesmo a mudança das
estações do ano
rememorada a tempo
deveria tê-lo
detido
a visão de novos rostos
e antigos também
a vinda de novas ideias
e novas dificuldades
Zum Freitod des Flüchtlings W. B.
Ich höre, daß du die Hand gegen dich erhoben hast
Dem Schlächter zuvorkommend.
Acht Jahre verbannt, den Aufstieg des Feindes beobachtend
Zuletzt an eine unüberschreitbare Grenze getrieben
Hast du, heisst es, eine überschreitbare überschritten.
Reiche stürzen. Die Bandenführer
Schreiten daher wie Staatsmänner. Die Völker
Sieht man nicht mehr unter den Rüstungen.
So liegt die Zukunft in Finsternis, und die guten Kräfte
Sind schwach. All das sahst du
Als du den quälbaren Leib zerstörtest. [1941]
Ao suicídio do fugitivo W. B.
Ouço que levantaste a mão contra ti mesmo
Te antecipando ao carniceiro.
Oito anos desterrado, observando a ascensão do inimigo
Por fim, coagido a uma fronteira intransponível
Uma transponível, diz-se, ultrapassaste.
Reinos desabam. Os chefes de quadrilha
Avançam como homens de Estado. Não
Se vé mais os povos sob os armamentos.
Assim o futuro jaz na escuridão, e as forças do bem
Estão fracas. Tudo isso tu vias
Ao destruíres o torturável corpo.
Die Verlustliste
Flüchtend vom sinkenden Schiff, besteigend ein sinkendes
— Noch ist in Sicht kein neues —, notiere ich
Auf einem kleinen Zettel die Namen derer
Die nicht mehr um mich sind.
Kleine Lehrerin aus der Arbeiterschaft
MARGARETE STEFFIN. Mitten im Lehrkurs
Erschöpft von der Flucht
Hinsiechte und starb die Weise.
So auch verließ mich der Widersprecher
Vieles Wissende, neues Suchende
WALTER BENJAMIN. An der unübertretbaren Grenze
Müde der Verfolgung, legte er sich nieder.
Nicht mehr aus dem Schlaf erwachte er.
Und der stetige, des Lebens freudige
KARL KOCH, Meister im Disput
Merzte sich aus in dem stinkenden Rom, betrügend
Die eindringende SS.
Und nichts höre ich mehr von
KASPAR NEHER, dem Maler. Könnte ich doch wenigstens ihn
Streichen von dieser Liste!
Diese holte der Tod. Andere
Gingen weg von mir für das Lebens Notdurft
Oder Luxus. [1941]
A lista de óbitos
Fugindo do navio que afunda, subindo em um que afunda
— Ainda não há nenhum novo à vista —, anoto
Num pequeno papel os nomes dos
Que já não estão mais ao meu redor.
Pequena professora vinda do operariado
MARGARETE STEFFIN. No meio do curso
Exaurida da fuga
Definhou e morreu a sapiente.
Assim também me deixou o contraditor
O que muito sabia, e o novo buscava
WALTER BENJAMIN. Na intransponível fronteira
Cansado da perseguição, ele se deitou.
Para não mais levantar do sono.
E o perene, alegre da vida
KARL KOCH, mestre em disputar
Erradicou-se na fétida Roma, ludibriando
Os SS invasores.
E nada mais ouvi de
KASPAR NEHER, o pintor. Quem me dera ao menos
Riscar seu nome desta lista!
Estes, a morte os levou. Outros
Se foram de mim por necessidades da vida
Ou luxo.
1
Angesichts der Zustände in dieser Stadt
Handle ich so:
Wenn ich eintrete, sage ich meinen Namen und zeige
Die Papiere, die ihn belegen mit Stempeln, die
Nicht gefälscht sein können.
Wenn ich etwas sage, führe ich Zeugen an, für deren Glaubwürdigkeit
Ich belege habe.
Wenn ich schweige, gebe ich meinen Gesicht
Einen Ausdruck der Leere, damit man sieht:
Ich denke nicht nach.
So
Erlaube ich niemandem, mir zu glauben. Jedes Vertrauen
Lehne ich ab.
2
Dies tue ich, weil ich weiß: der Zustand dieser Stadt
Macht zu glauben unmöglich.
3
Dennoch geschiet es mitunter
Ich bin zerstreut oder beschäftigt
Daß ich überumpelt werde und gefragt
Ob ich kein Schwindler bin, nicht gelogen habe, nichts
Bestimmtes im Schilde führe
Und ich
Werde immer noch verwint, rede unsicher und verschweige
Alles, was für mich spricht, sondern
Schäme mich. [1941]
1
Em face à situação desta cidade
Procedo assim:
Quando entro, digo meu nome
mostro
Os documentos que o comprovam com carimbos que
Não podem ser falsificados.
Quando digo algo, apresento testemunhas cuja idoneidade
Posso comprovar.
Quando me calo, dou à minha cara
Uma expressão de vazio, para que se veja:
Não estou pensando em nada.
Assim
Não permito que ninguém acredite em mim. Recuso
Qualquer confiança.
2
Faço isso porque sei: a situação desta cidade
Torna impossível crer-se em algo.
3
Contudo, quando estou disperso
Ou ocupado, acontece às vezes
De eu ser surpreendido e questionado
Se não sou um impostor, se não menti, se não
Tenho segundas intenções.
E vou
Ficando atrapalhado, converso inseguro e omito
Tudo o que falaria a meu favor, e sinto
Vergonha de mim.
[Franz Kafka, entre outros, e em outros locais, já via isso antes no Império Austro-Húngaro. Das Passagen-Wer, de Walter Benjamin, foca isto no século anterior.]
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht);
300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações
autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução &
tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa
Lion Feuchtwanger (1928). – São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

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